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Descafeinado sempre soou castigo pra gente: processo químico que leva o sabor junto com a cafeína. O Laurina muda essa conversa, porque quando a própria planta pega leve, ninguém precisa de solvente.
A gente subiu as montanhas capixabas atrás de um grão estranho. Pequeno, pontudo, encurvado feito uma vírgula, e com uma fama que parece truque de marketing: ele nasce já com quase metade da cafeína de um café comum, sem ninguém tirar nada. É o Laurina, também chamado de Bourbon Pointu.
A pergunta da xícara é direta: dá pra ter café cheio no copo, doce e gostoso, com bem menos cafeína por natureza?
I · O GRÃO DO DIA
A vírgula que já nasce com metade da cafeína
Varietal é a variedade da planta do café, do mesmo jeito que uva tem cabernet e merlot. O Laurina, ou Bourbon Pointu, é uma mutação natural do velho Bourbon que apareceu numa ilha do Oceano Índico chamada Reunião, e hoje encontra terreno de altitude e clima certos nas montanhas do Espírito Santo.
O nome Pointu, pontudo em francês, vem do formato do grão: ele é mais estreito e curvado nas pontas, lembrando uma vírgula, e a folha da planta também é mais afilada que a do Bourbon comum.
O que faz o Laurina virar conversa é a cafeína. Por uma característica da própria planta, o grão acumula naturalmente cerca de metade da cafeína de um arábica comum, algo na faixa de 0,6% contra os 1,2% de um café normal.
E o ponto que muda tudo: não tem processo de remoção no meio. O descafeinado tradicional passa o grão por água quente ou solvente para arrancar a cafeína, e nesse banho some também parte do aroma e do corpo, e é por isso que tanto descafeinado fica chapado.
No Laurina, a cafeína já vem baixa de fábrica, da semente. O sabor fica inteiro porque nada foi tirado dele.
E o sabor é o segundo motivo da fama. O Laurina é conhecido pela doçura: a xícara puxa Notas de mel, frutas claras e flores, com acidez delicada e um amargor muito baixo.
É um café leve no peso, limpo e doce, daqueles que descem fácil. Quem quer xícara cheia no fim da tarde, sem o pico de cafeína que rouba o sono, encontra aqui o melhor dos dois lados.
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Laurina: Notas de mel, frutas claras e flores, com doçura leve, acidez delicada e amargor muito baixo. Quase metade da cafeína de um café comum, sem nenhum processo de remoção. O sabor fica inteiro porque nada foi tirado dele.
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Faixa de preço dos 250g: R$ 70 a R$ 120, dependendo do produtor e da safra. É mais caro que o café do dia a dia, e tem um porquê: o Laurina produz pouco por pé e dá mais trabalho na lavoura, então cada grão sai mais raro. É café de ocasião, não de garrafa térmica do escritório.
II · COMO PREPARAR
Prensa francesa morna, pra dar corpo sem matar a leveza
O método que escolhemos para o Laurina foi a prensa francesa, aquele cilindro de vidro com um êmbolo de tela metálica que empurra o pó para o fundo.
A prensa não usa filtro de papel, então deixa passar os óleos naturais do café, e isso entrega uma xícara mais encorpada e redonda. Para um grão doce e delicado como o Laurina, é o preparo que dá peso ao copo sem matar a leveza.
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A receita na prensa francesa
| Café | 18g |
| Água | 300ml (proporção 1 pra 16) |
| Moagem | grossa (sal grosso) |
| Temperatura | 92°C |
| Bloom | 36ml por 30 seg |
| Tempo total | 4 minutos de descanso |
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No passo a passo: coloque o pó, despeje o dobro de água do peso do café, uns 36ml, e espere 30 segundos. Isso é o bloom, a primeira despejada que tira o gás do café e prepara para a extração.
Depois complete com o resto da água, encoste a tampa sem apertar o êmbolo, e deixe descansar por 4 minutos. Em seguida empurre o êmbolo devagar até o fundo, com calma, e sirva na hora para não continuar extraindo.
Sirva o Laurina morno, por volta de 55°C, e a prensa de preferência aquecida antes com um pouco de água quente, que assim o copo não esfria rápido demais. Morno é a temperatura em que o mel e a fruta mais se abrem, e é onde o Laurina mostra a doçura que o torna especial.
Tome devagar: é um café para sentar e prestar atenção, não para virar de pé.
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III · O DETALHE
O grão que quase foi extinto
Tem uma história boa por trás dessa vírgula. O Laurina quase sumiu do mapa.
Ele nasceu de uma mutação espontânea numa única ilha, foi cultivado por séculos por lá, e por ser pouco produtivo foi sendo abandonado pelos fazendeiros, que preferiam variedades de maior rendimento.
Por décadas ficou esquecido, à beira da extinção, até que um esforço de resgate trouxe a planta de volta e levou suas sementes para outros cantos do mundo de café fino, o Brasil entre eles.
Então, quando você prova um Laurina, prova um café que voltou da quase-morte por causa do que ele tem de raro. A baixa cafeína natural não foi inventada num laboratório, é uma esquisitice de uma só planta numa ilha perdida, mantida viva no copo.
Sentir essa doçura leve, sabendo que ela vem de uma vírgula que quase deixou de existir, é entender que cada varietal carrega uma história na xícara.
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