Notas do Café #001 · Fazenda Ambiental Fortaleza
Notas do Café

EDIÇÃO Nº 001 · SÁBADO, 11 DE ABRIL DE 2026

O GRÃO DE HOJE

Fazenda Ambiental Fortaleza, Mococa (SP)

O Yellow Bourbon que coloca o Brasil no mapa do café especial mundial.

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Grãos de Yellow Bourbon da FAF em tigela de cerâmica e V60 em preparo

DA FAZENDA À XÍCARA

mococa 1850 → família croce 1980 → yellow bourbon → v60 → sua xícara

Se existe um produtor de café no Brasil que os estrangeiros conhecem antes dos brasileiros, é a Fazenda Ambiental Fortaleza, em Mococa, interior de São Paulo. Blue Bottle comprou. Intelligentsia comprou. Torrefadores de Tóquio a Oslo servem o grão com o nome da fazenda na bolsa, em letra grande. Aqui dentro, quase ninguém ouviu falar.

Essa edição é pra corrigir isso.

I · GRÃO DA SEMANA

Yellow Bourbon, três gerações, um lote certo

A FAF não é um projeto jovem com narrativa bonita. É uma fazenda com 175 anos de história e três gerações de uma família no comando atual. Em 1850, Francisco Schmidt começou a plantar café ali, numa área de Cerrado que viraria referência do café paulista. A fazenda passou por ciclos, trocou de mãos, viveu anos difíceis. Nos anos 1980, a família Croce retomou a operação e decidiu fazer algo que, na época, era quase heresia no Brasil: tratar café como produto final, não como commodity de exportação a granel.

Hoje são cerca de 10 mil sacas por ano. Parece pouco pra quem pensa em café como número de bolsa de Nova York. Pra quem pensa em café especial, é um volume respeitável de lotes rastreados, microlotes separados por talhão, processos de fermentação controlada e relação direta com torrefadores no Brasil e fora. A FAF não vende pra coopertativa. Vende pra quem quer o café da FAF.

O varietal em destaque aqui é o Yellow Bourbon, que em português ficou conhecido como Bourbon Amarelo. Ele é um primo mais doce e mais delicado do Bourbon tradicional, com uma mutação que produz cerejas amarelas em vez de vermelhas. No copo, isso se traduz em doçura mais presente, acidez mais polida e um corpo que envolve a língua sem pesar. É o tipo de café que conversa bem com quem nunca tomou especial na vida e com quem já tomou de tudo.

Notas de chocolate amargo com ponta de caramelo, castanha torrada, um toque cítrico discreto (tipo laranja madura, não limão), corpo aveludado, finalização longa e limpa. Nada de fruta tropical explosiva, nada de fermentado experimental. É Brasil clássico, mas feito com o nível técnico que o Brasil clássico quase nunca teve.

Preço médio no varejo especial: a 120 a embalagem de 250g. Encontra direto no site da FAF Coffees, na Um Coffee Co., na Coffee & Joy e em alguns cafés de torra própria em São Paulo, Rio, Curitiba e Floripa. Tem gente vendendo mais barato, tem gente vendendo mais caro. Nessa faixa está o justo.

Vale a xícara. E vale saber que é brasileiro antes de ser internacional.

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II · PREPARO DA SEMANA

V60, 15g, 93°C, três minutos de atenção

Todo café pede um método que respeite o que ele tem de melhor. Com o Yellow Bourbon da FAF, o método que extrai mais sem atropelar é o V60, da Hario. É um coador de cerâmica ou vidro em formato cônico, com ranhuras internas em espiral e um furo grande no fundo. Foi criado no Japão em 2004 e virou padrão global de café especial por um motivo simples: entrega clareza sem tirar corpo.

A receita que funciona melhor com esse grão, testada por aqui e confirmada por baristas que trabalham com FAF há anos:

15 gramas de café moído em textura média-fina (parece açúcar de confeiteiro grosso, não areia de praia). 250 mililitros de água filtrada a 93°C, proporção 1:16,6. Papel-filtro Hario V60-02 pré-molhado com água quente pra tirar o gosto de papel e aquecer o coador.

O preparo em três etapas simples:

Primeiro, a pré-infusão, também chamada de bloom. Despeje 40g de água (é o dobro do peso do café em gramas, fácil de lembrar) em movimento circular do centro pra fora. Espere 30 segundos. O café vai inchar, liberar CO2 acumulado na torra e começar a expor os compostos aromáticos. Essa etapa é inegociável. Pular a pré-infusão é aceitar um café com extração desigual.

Segundo, o despejo principal. Entre os segundos 30 e 60, complete até 150g de água total, sempre em espiral, sem deixar a água tocar a parede do filtro. O objetivo é manter o leito de café uniforme, sem lavar grão pro alto.

Terceiro, o despejo final. Entre os segundos 60 e 90, complete até os 250g totais. Deixe escorrer. Tempo total da extração, do bloom até a última gota cair: entre 2 minutos e 50 segundos e 3 minutos e 20 segundos. Se passar muito desse tempo, a moagem está fina demais. Se for rápido demais, está grossa.

Sirva em caneca ou xícara de cerâmica pré-aquecida. Espere um minuto antes do primeiro gole. Café recém-extraído ainda está quente demais pra você sentir o que ele tem pra dizer, e o Yellow Bourbon da FAF tem bastante pra dizer quando a temperatura baixa pros 65°C.

III · SETUP HONESTO

O kit mínimo sem fetichismo de equipamento

Existe uma armadilha no café especial que precisa de nome: fetichismo de equipamento. É a ideia de que pra tomar café bom em casa você precisa gastar numa máquina italiana, num moedor alemão e mais em acessórios que ninguém explica pra que servem. Isso é mentira bem vendida.

O kit mínimo honesto pra fazer café especial em casa, com o Yellow Bourbon da FAF ou com qualquer outro grão do nível dele, é isso aqui:

Moedor de rebarba manual. O Timemore C2 custa em torno de e entrega moagem uniforme suficiente pra V60, prensa francesa e AeroPress. Rebarba (burr), nunca de lâmina. Moedor de lâmina pica o grão em pedaços desiguais, arruína a extração e torna impossível acertar o ponto. É o item onde economizar dói mais. Se tiver orçamento folgado, o 1Zpresso JX ou o Commandante MK4 são referências, mas pro iniciante o Timemore resolve 95% do problema por um terço do preço.

Balança digital com precisão de 0,1 grama. A Felicita Arc custa e tem timer embutido, que ajuda. Mas uma balança de cozinha chinesa de em qualquer marketplace também faz o serviço, desde que tenha precisão de 1 grama e casa decimal. Pesar café é inegociável. Medir por colher é aceitar que cada xícara será diferente da anterior. Barista profissional não existe sem balança e café em casa também não deveria.

Chaleira de bico fino (pescoço de cisne). A Hario Buono custa em torno de e aquece em fogão comum. A versão elétrica com controle de temperatura (a Fellow Stagg EKG) custa e vale pra quem prepara café todos os dias. Pra quem prepara aos sábados, a Buono resolve. O bico fino permite controlar onde a água cai e evita o respingo desorganizado de uma chaleira comum.

V60 Hario 02 de cerâmica com 40 filtros de papel. Custa o conjunto básico. O V60 em si é eterno, os filtros são descartáveis.

Investimento total no setup mínimo: perto de . Um degrau acima em cada item: a 3.000. Mais do que isso, no começo, é dinheiro gasto em status, não em sabor.

O que não entra no kit mínimo: máquina espresso doméstica, refratômetro, termômetro infravermelho, xícara de porcelana assinada. Tudo isso pode entrar depois, quando você sente que o kit básico está limitando o resultado. Antes disso, é fetichismo caro.

Veredicto: compre o moedor, a balança, a chaleira e o V60. Gaste o resto em grão bom. Um pacote de FAF por mês faz mais pela sua manhã do que um upgrade de máquina.

O KIT, COM LINK

Moedor Timemore C2 →
Balança 0,1g com timer →
Hario V60 + filtros →

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Bom café. Até sábado.

Da fazenda à xícara, sem frescura.

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