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O Espírito Santo vive na sombra de Minas quando o assunto é café especial, e a gente acha isso uma injustiça antiga. Grão capixaba de montanha merece briga de igual pra igual, e o de hoje sustenta o argumento sozinho.
A gente foi até a origem. Subiu as montanhas do Espírito Santo, na faixa acima dos 1.000 metros onde o ar é mais frio e o café amadurece sem pressa. O nome completo do que está na xícara de hoje: Yellow Catucaí, processo natural, secado inteiro no terreiro até a fruta virar açúcar dentro do grão.
I · O GRÃO DO DIA
O sol seca a fruta, o doce vira grão
Comece pelo varietal. O Yellow Catucaí é uma seleção brasileira, prima do Catuaí, com cereja que amadurece num tom amarelo dourado em vez de vermelho. É uma planta rústica, que aguenta bem o clima de montanha, e dá uma xícara doce, de corpo médio e acidez gentil.
Nas montanhas capixabas ele encontra o lugar certo. A altitude de 1.000 metros importa porque o frio das noites na serra faz o fruto amadurecer devagar, e amadurecer devagar é o que concentra açúcar dentro do grão.
Café de altitude costuma ser mais doce e mais complexo por isso, não por acaso.
O que define esse café é o processo, e ele tem nome: natural. Quer dizer que a cereja é colhida bem madura e seca inteira ao sol, com a polpa em volta do grão, em vez de ser despolpada antes.
Durante a secagem no terreiro, que é o pátio onde os grãos ficam expostos ao sol, o açúcar da fruta migra pra dentro da semente. É daí que vem o doce intenso, de fruta madura, que marca esse tipo de café.
Secar assim pede capricho: o produtor revira os grãos várias vezes ao dia pra que sequem por igual e a polpa não fermente demais. Quando dá certo, o resultado é uma xícara de cereja madura, redonda e cheia.
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Notas de manga, mel e amêndoa. A manga abre na frente, uma fruta tropical madura e doce, sem ser ácida demais. O mel entra no meio com a doçura macia da fruta seca no grão. E a amêndoa fecha no fundo, uma castanha leve que dá lastro e tira qualquer enjoo do doce.
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Faixa de preço dos 250g: R$ 46 a R$ 60, dependendo do torrefador e da safra.
II · COMO PREPARAR
V60, bloom e a água logo abaixo da fervura
Um café naturalmente doce e frutado como esse pede um método que mostre a fruta com clareza, sem turvar. O ideal aqui é o V60, aquele coador de papel em formato de cone com ranhuras por dentro.
A água passa por gravidade e escorre rápido, em volta de 2 a 3 minutos, então o que fica na xícara é limpo e nítido.
Esse contato curto e a filtragem em papel deixam o doce e o frutado aparecerem separados, em camadas, exatamente o que um natural bem feito tem de melhor.
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A receita pra uma xícara
| Café | 15g |
| Água | 250ml (proporção 1 pra 16) |
| Moagem | média (açúcar cristal) |
| Temperatura | 92°C |
| Bloom | 30g de água, 30 seg |
| Tempo total | 2 a 3 min de coado |
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No passo a passo, comece pelo bloom, que é molhar só o pó com o dobro do peso em água, uns 30g, e esperar 30 segundos. O pó incha e solta gás, e tirar esse gás antes faz a água seguinte extrair por igual.
Depois despeje o resto em duas ou três voltas calmas, no centro pra fora, até completar os 250ml. O coado inteiro deve fechar entre 2 e 3 minutos.
A água a 92°C, logo abaixo da fervura, é o ponto que puxa a manga e o mel sem queimar o grão e sem trazer amargor. Beba por volta de 60°C, morno. É morno que a fruta mais se abre, com a amêndoa aparecendo conforme o café esfria.
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III · O DETALHE
No natural, a origem é metade do café
Fica um aviso honesto sobre café natural, pra quem vai provar esse perfil pela primeira vez. O doce de fruta madura é a graça dele, mas é também o seu limite: se a secagem passa do ponto, o doce vira fermentado, aquele gosto de fruta passada ou de vinho barato.
Não é defeito de quem comprou, é descuido de quem secou. Por isso, num natural, a origem e o produtor importam mais ainda do que num café lavado. Um Yellow Catucaí de montanha, secado com capricho no terreiro, entrega manga e mel limpos.
O mesmo grão secado com pressa entrega álcool e azedume.
Como saber qual você tem na mão antes de comprar de novo? Pela própria xícara. Doçura de fruta fresca, viva, com final limpo: secagem no ponto, pode repetir. Gosto de fruta passada, lembrança de álcool, peso que não sai da boca: passou do ponto.
O paladar é o melhor controle de qualidade que existe, e ele aprende rápido. Depois de algumas xícaras você reconhece um natural bem secado no primeiro gole, e passa a escolher pela origem com confiança.
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Bom café. Bom dia.
Da fazenda à xícara, sem frescura.
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