In partnership with

Notas do Café

O GRÃO DE HOJE

Catuaí Amarelo de Caconde

Do tanque de koji à Kalita Wave de fundo chato.

Leia ouvindo

Notas do Café 

Spotify
Grãos de café Catuaí Amarelo saindo de um saco de linho sobre mesa de madeira na varanda de uma lavoura de Caconde, no lado paulista da Serra da Mantiqueira, coador Kalita Wave de cerâmica branca com filtro ondulado sobre a jarra de vidro em primeiro plano, bandeja de arroz inoculado com koji, damasco seco e um prato de mel junto aos grãos, tanque de fermentação fechado e terreiros suspensos de tela com cerejas amarelas secando ao fundo e as montanhas na neblina da manhã

Caconde fica no lado paulista da Serra da Mantiqueira e produz um Catuaí Amarelo que passa 36 horas fermentando com koji, o mesmo fungo que faz missô e saquê. Depois seca inteiro no terreiro suspenso. Na Kalita Wave, chegou com damasco seco, caramelo salgado e mel.

Caconde tem noite fria e altitude de sobra, e um produtor pequeno resolveu entregar a cereja madura ao mesmo fungo que o Japão usa pra fazer missô.

É o oposto do café que seca solto no terreiro e torce pela sorte. Na Kalita Wave, veio damasco seco, caramelo salgado e mel, com corpo médio e final longo.

I · O GRÃO DO DIA

O Catuaí Amarelo que Caconde entrega ao fungo do missô

Caconde é uma cidade pequena no nordeste de São Paulo, encostada na divisa com Minas, no pé da Serra da Mantiqueira. A lavoura sobe de 1.000 a 1.400 metros e a maior parte das propriedades cabe em poucos hectares.

O lado paulista da serra passou décadas na sombra do lado mineiro. Vendia café em bica corrida pro armazém da cidade, sem nome de talhão e sem preço de especial, com o mesmo grão que hoje ganha concurso.

A virada veio de produtor separando lote por altitude e por variedade. O talhão deixou de ser uma coisa só, e cada rua passou a ter colheita, secagem e destino próprios.

O grão de hoje é Catuaí Amarelo, a variedade mais plantada do Brasil, de porte baixo e cereja que amarela em vez de avermelhar. Não tem nada de raro na planta, e é justamente aí que mora a graça.

Catuaí Amarelo bem tratado entrega doçura de caramelo e corpo médio. Malcuidado, entrega café de padaria. É variedade de trabalho, e é no trabalho depois da colheita que se decide a xícara.

O que muda tudo aqui vem depois da colheita. A cereja madura entra num tanque fechado junto com arroz cozido e inoculado com koji, e passa 36 horas fermentando com o fungo dentro.

Koji é o nome de cozinha do Aspergillus oryzae, fungo que o Japão domesticou há mais de mil anos. É ele que transforma soja em missô, arroz em saquê e trigo com soja em shoyu.

O fungo não faz a fermentação sozinho, ele abre caminho. Solta enzimas que quebram amido em açúcar simples e proteína em aminoácido, e serve comida pronta pras leveduras que entram depois.

Na cereja do café a lógica é a mesma. A polpa vira açúcar mais rápido, o aminoácido livre se acumula no grão, e a fermentação corre com um perfil de aroma que levedura sozinha não alcança.

As 36 horas são conta fechada, não chute. Abaixo dessa marca o koji mal colonizou a superfície da cereja; muito acima dela a bebida sai com álcool e vinagre por cima da fruta.

O tanque fica lacrado, sem oxigênio entrando, com a temperatura conferida de hora em hora. Koji trabalha em calor ameno, e fermentação que passa dos 30 graus azeda antes de adoçar.

Terminadas as 36 horas a cereja sai do tanque e vai inteira pro terreiro, sem lavar. O terreiro é suspenso, uma tela em cavalete a um metro do chão, com ar passando por cima e por baixo ao mesmo tempo.

A camada fica fina e é revirada de duas em duas horas, por dezoito a vinte e dois dias. Um lote que saiu do koji chega ao terreiro carregado de açúcar disponível, e açúcar parado em camada grossa azeda em uma tarde.

Catuaí Amarelo de Caconde, no lado paulista da Serra da Mantiqueira: notas de damasco seco, caramelo salgado e mel, com corpo médio, acidez macia e final longo. Fermentado 36 horas em tanque fechado com koji e secado inteiro em terreiro suspenso.

Na boca, o Catuaí abre com damasco seco no aroma, entrega caramelo salgado no meio do gole e fecha com mel, denso e sem enjoar. É café de corpo médio, acidez macia e final longo. Faixa de preço dos 250g comprando direto do produtor: R$ 80 a R$ 130. Tanque fechado, termômetro e gente acordada de madrugada entram no preço.

 
◆︎◆︎◆︎
 

II · COMO PREPARAR

A Kalita Wave que extrai parelho e segura o mel no fundo

Um café denso, de doçura pesada e final salgado, pede um coador que extraia parelho e não afunile o pó na ponta, e o coador é a Kalita Wave. O fundo é chato e a água sai por três furos pequenos.

A Kalita Wave nasceu no Japão como resposta ao problema do cone. No cone o pó se acumula na ponta, e a água atravessa uma camada bem mais grossa no centro do que na borda.

No fundo plano a camada de café tem a mesma espessura em toda a base. A água passa por igual, e a xícara repete o mesmo resultado toda manhã, mesmo com a mão tremendo na chaleira.

O filtro é próprio, de parede ondulada com vinte pregas. As ondas encostam de leve na parede e deixam o papel quase solto, o que impede o pó de grudar e travar a passagem da água.

A receita na Kalita Wave

Café22g
Água350ml (proporção 1 pra 16)
Moagemmédia, tipo areia de praia, mais grossa que a de cone
Temperatura93°C
Pré-infusão60ml por 40 segundos, filtro ondulado escaldado
Tempo total3 minutos e 15 a 3 minutos e 30, em quatro vertidas

Escalde o filtro ondulado com água fervente antes de tudo. O papel da Kalita é mais grosso que o de cone e chega com gosto de fibra, e o gosto vai inteiro pra caneca se o filtro entrar seco.

Moa um pouco mais grosso que no cone. O fundo plano já segura a água por mais tempo, e moagem fina num leito raso empoça no papel e devolve amargor no lugar do caramelo.

Moagem grossa demais faz o contrário: a água atravessa antes de dissolver o açúcar da fermentação, e o damasco fica preso no pó com a caneca aguada.

A água entra a 93 graus, acima do que se usa num café floral. Doçura pesada e aminoácido de fermentação precisam de calor pra sair, e a água fervendo arrancaria junto o amargor da torra.

Comece com 60ml e espere quarenta segundos. Lote fermentado solta muito gás no primeiro contato, e sem a espera a água escorre por dentro das bolhas e sai sem tocar metade do pó.

Depois vá em quatro vertidas em círculos pequenos, sempre no centro, sem correr pra borda. Na Kalita a água se espalha sozinha no fundo chato, e molhar a parede só empurra pó pra cima do papel.

Mantenha o leito coberto de água do começo ao fim. Pó exposto resseca e para de extrair, e é aí que a xícara perde o final de mel e fica com gosto de casca.

Mire em três minutos e vinte. Se drenar antes de três, feche um pouco a moagem; se passar de três e meio, abra.

Sirva e espere um minuto antes do primeiro gole. O damasco seco aparece no aroma ainda quente, o caramelo salgado abre conforme a xícara amorna, e o mel fica por último, grudado no céu da boca.

Kalita Wave →
Comprar os grãos (250g) →

Links de afiliado. Sem custo extra pra você, ajuda a manter Notas do Café de pé.

 
◆︎◆︎◆︎
 

III · O DETALHE

Por que um fungo de cozinha japonesa entrou no terreiro

Agora a parte que quase ninguém repara: fermentação de café deixou de ser acidente e virou receita. Por décadas o produtor secava o que a natureza mandasse, e o resultado mudava de lote pra lote sem explicação.

O koji entra como atalho de controle. Em vez de torcer pra que a levedura certa apareça sozinha na cereja, o produtor coloca um fungo conhecido, com tempo e temperatura medidos, e sabe o que vai sair do tanque.

É a mesma lógica de quem faz missô há mil anos. O arroz inoculado não é tempero, é ferramenta de quebrar molécula grande em molécula pequena, e o sabor aparece como consequência.

O caramelo salgado da xícara tem nome químico. A quebra de proteína pelo koji libera glutamato, o mesmo aminoácido que dá o gosto redondo e salgado do missô e do shoyu, e ele não nasce numa cereja lavada.

O damasco seco vem do outro lado da conta. Açúcar concentrado e fermentação sem oxigênio produzem éster de fruta madura, e a fruta chega seca, não fresca, porque a polpa desidratou junto com o grão.

Nenhuma dessas 36 horas se sustenta sem terreiro. A cereja sai do tanque encharcada de açúcar disponível, e um único dia em camada grossa apaga o controle todo e devolve gosto de fruta passada.

A Kalita entra pra provar o argumento porque não maquia nada. O leito raso e parelho extrai igual da borda ao centro, e uma fermentação passada denuncia álcool no aroma logo na primeira coada.

Num lote bem conduzido o coador faz o contrário. Deixa o damasco no aroma, o caramelo salgado no meio e o mel no fundo, um de cada vez, com uma nitidez que pó de mercado moído há meses nunca alcança.

E tem a decisão que começa tudo, comprar direto de quem plantou. O café veio de um talhão só, com altitude, variedade e método de fermentação declarados, e o dinheiro voltou pra mão que ficou de madrugada olhando termômetro.

O Catuaí de Caconde não disputa preço de prateleira nem variedade exótica. Disputa a ideia de que o café mais comum do Brasil vira outra coisa quando alguém controla as 36 horas certas. O veredicto está na caneca: o mel continua ali depois que a xícara esvazia.

 

Guia Notas do Café · Novo

Café de Balcão no Coador de Casa

Café de Balcão no Coador de Casa

A técnica completa sem máquina de R$ 2 mil.

Quero o guia →

Sua Jornada

Você lê as Notas do Café há {{dias_de_leitor | 1}} dias

A cada dia que você permanece, abre, clica, avalia e responde o quiz, você ganha XP (experiência). Mais XP sobe seu nível.

{{nivel | 0}}
NÍVEL
{{rank_nome | Visitante}}
{{xp | 0}} XP · faltam {{xp_falta | 0}} pro Nível {{nivel_prox | 1}}
 
{{edicoes_lidas | 1}}
edições lidas
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
Quero subir meu nível →

Top {{top_pct | 100}}%: Posição {{pos_mes | 0}} na comunidade Notas do Café nesse mês.

Quem banca a edição de hoje

The Ultimate Claude Code Guide to ship like Anthropic engineers

AI will write 90% of code by the end of 2026, and only 10% of developers will stay relevant.

The engineers in that 10% aren't smarter. They just know how to use AI.

We put together the exact playbook Anthropic engineers use to make sure you're in the top 10%.

Sign up for The Code and get access to:

  • The Ultimate Claude Code Guide 2026 — 50+ tips and tricks to code 5x faster

  • The Code newsletter — learn the latest AI tools, tips, and skills to code faster with AI in 5 minutes a day

Recomendação de Newsletter

Jogos de Valor

👑 Jogos de Valor

O filtro honesto pra sua mesa

Às 14:14 na sua caixa: um lançamento de tabuleiro lido a fundo, com o Índice de Mesa, o preço brasileiro e o veredicto de verdade.

Quero Receber →

Como foi a edição de hoje?

Toque nas xícaras pra avaliar:

☕☕☕☕☕  ótima ☕☕☕☕  boa ☕☕☕  ok ☕☕  ruim   péssima

💬 A comunidade votou acima e respondeu

Comentários reais de leitores, verificados 

L

“narrativa incrível da região onde se encontram os pés de café, pura literatura”

l****@gmail.com
R

“O café bourbon rosa prova a quem quer que desconfie que o café é uma fruta especial”

Ronaldo · a****@gmail.com
R

“2 coisas: informações sobre um microlote e o processo de filtragem do origami”

Ronaldo · a****@gmail.com

🧠 Quiz da edição

Segundo a edição, quantas horas a cereja do Catuaí Amarelo de Caconde fica fermentando em tanque fechado com koji antes de ir pro terreiro secar?

A18 horas
B24 horas
C36 horas
D48 horas

Resultado da última edição: 62% acertaram.

Defenda seu título de {{titulo_quiz | Passador de Café (3 acertos seguidos garantem o primeiro)}}.

Veja o ranking de quem mais acerta →

👀 Abra seu email às 08:08 e você receberá a próxima edição:

Próxima edição

O IAPAR 59 que o Paraná criou depois da geada negra

Chocolate ao leite, castanha e melado no coador de pano, com gramas e tempo

Bom cafe. In cafea veritas.

NOTAS DO CAFÉ

Todo dia, um café melhor

📩 Cadastrar·💬 WhatsApp·📝 Pesquisa·📣 Anuncie

Continue lendo