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Notas do Café

O GRÃO DE HOJE

Java da Serra da Mantiqueira

Da lavoura de altitude à Chemex que limpa a xícara.

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Grãos de café Java alongados e estreitos saindo de um saco de linho sobre mesa de madeira na varanda de uma lavoura de altitude da Serra da Mantiqueira em Minas Gerais, Chemex de vidro com colar de madeira e tira de couro em primeiro plano, ramo de jasmim, pêssego partido e um pote de mel junto aos grãos, terreiros suspensos de tela com cerejas vermelhas secando ao fundo e as montanhas na neblina da manhã

A Serra da Mantiqueira tem café com sobrenome e quase ninguém planta o varietal de hoje. O grão sai de uma lavoura de altitude do lado mineiro: um Java, de grão alongado e estreito, colhido cereja a dedo e secado em terreiro suspenso. Na Chemex, chegou com jasmim, pêssego e mel.

A Mantiqueira tem selo de origem e quase ninguém planta o varietal de hoje. Ali um produtor pequeno colhe a dedo, na meia encosta, um Java que veio da Etiópia com o grão comprido e fino.

É o oposto do blend de prateleira. Na Chemex, veio jasmim, pêssego e mel, com acidez viva e final limpo.

I · O GRÃO DO DIA

O Java que a Etiópia mandou e a Mantiqueira adotou

A Serra da Mantiqueira separa Minas de São Paulo com um paredão de montanha que passa dos 1.200 metros em muito ponto. Do lado mineiro, o café ocupa a meia encosta e a região tem selo próprio de origem, a Mantiqueira de Minas.

Ali a lavoura vive entre 900 e 1.400 metros, com noite fria o ano inteiro e neblina que sobe do vale antes do sol. O frio da madrugada segura o metabolismo do pé, faz a cereja demorar semanas a mais pra ficar vermelha e é essa demora que enche o grão de açúcar e de acidez de fruta.

O grão de hoje sai de uma propriedade pequena de meia encosta, com talhão em degrau e terreiro colado na casa. O produtor colhe, seca e vende o próprio lote, sem armazém de terceiro no meio do caminho.

O que está plantado no talhão de cima é o Java, e o nome engana. A ilha aparece no rótulo por causa do trajeto que a planta fez, mas o DNA dela é etíope, das matas da Abissínia, onde o arábica nasceu.

O caminho foi longo. Saiu da Etiópia pra Indonésia no tempo do café colonial, passou por Camarões nos anos 1930 e só chegou à América Central nos anos 1990. No Brasil é raro.

Na mão dá pra reconhecer sem balança. O grão do Java é alongado e estreito, quase o dobro de comprimento pra largura de um Catuaí, e o formato muda a torra: ponta fina esquenta antes do miolo e queima se o torrador entrar com fogo alto.

A fama do Java, porém, veio da lavoura, não do formato. Em Camarões a planta foi multiplicada porque aguentava a antracnose dos frutos, a doença que apodrece a cereja ainda no galho e arrasou cafezal africano inteiro.

É resistência rara. Quase todo cruzamento que blinda a planta contra doença cobra o preço na xícara e entrega café duro, e o Java passou no teste sem perder doçura nem perfume.

Só que ele não é imune a tudo. A ferrugem ainda pega, o pé cresce alto demais pra colheita rápida e produz pouco por planta, e por essas três razões quase ninguém no Brasil aposta um talhão inteiro nele.

A colheita é feita a dedo, cereja por cereja, com quatro a cinco passadas na mesma rua ao longo da safra. Grão verde no meio de um Java estraga o perfume, porque o que sobra na xícara é adstringência no lugar de floral.

Depois da colheita a fruta vai pro terreiro suspenso, uma tela esticada em cavalete a um metro do chão. Fica em camada fina, revirada de duas em duas horas, com ar passando por cima e por baixo do lote ao mesmo tempo.

No chão de laje o café pega o calor da pedra de dia e a umidade que sobe do solo de noite. Na tela suspensa a secagem é mais lenta e mais parelha, e leva de doze a vinte dias até o grão bater o ponto de umidade.

É dessa secagem ventilada que sai o jasmim, aroma volátil que some no primeiro erro de terreiro. O pêssego vem da altitude, da acidez de fruta de caroço que a noite fria constrói, e o mel é o corpo doce que aparece quando a xícara amorna.

Java de lavoura de altitude da Serra da Mantiqueira: notas de jasmim, pêssego e mel, com corpo médio, acidez viva e final limpo. Varietal de grão alongado e estreito vindo da Etiópia, resistente à antracnose dos frutos, colhido cereja a dedo e secado em terreiro suspenso.

Na boca, o Java abre com jasmim no aroma, entrega pêssego no meio do gole e fecha com mel, doce e longo. É café de corpo médio, acidez viva e final limpo. Faixa de preço dos 250g comprando direto do produtor: R$ 48 a R$ 72. Varietal raro e de baixa produção cobra caro, e paga quem planta o que ninguém planta.

 
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II · COMO PREPARAR

A Chemex que limpa a xícara em quatro minutos e meio

Um café de aroma floral e final limpo pede o método que tira do caminho tudo que não é sabor, e o método é a Chemex. O filtro grosso segura óleo e pó fino, e o que cai na xícara é aroma sem véu.

A Chemex é uma peça só de vidro de laboratório, com colar de madeira e tira de couro na cintura. Foi desenhada em 1941 por um químico alemão radicado em Nova York, que levou o funil do laboratório pra cozinha.

O segredo dela não é o vidro, é o papel. O filtro da Chemex é de vinte a trinta por cento mais espesso que o de coador comum, e essa espessura é o que retém o óleo do café e devolve uma xícara transparente.

A receita na Chemex

Café30g
Água500ml (proporção 1 pra 16)
Moagemmédia-grossa, tipo sal grosso
Temperatura94°C
Pré-infusão60ml por 40 segundos, filtro de três dobras pro bico
Tempo total4 minutos e 30 do começo ao fim, em três vertidas

Escalde o filtro com bastante água antes de tudo. O papel é grosso e chega com gosto de fibra, que vai inteiro pra xícara se ficar seco. A água quente ainda aquece o vidro e evita choque térmico no meio do preparo.

Vire o lado de três dobras pro bico da Chemex. As três camadas juntas apoiam o papel na parede e deixam o canal de ar aberto embaixo, e sem esse canal o ar preso segura a vazão e o café passa do ponto.

Moa mais grosso que o normal de coador, na textura de sal grosso. O filtro espesso já freia a água por conta própria, e moagem fina em cima de um filtro desses entope o papel e entrega xícara amarga com pó no fundo.

Comece com 60ml e espere quarenta segundos. A pré-infusão solta o gás preso no pó fresco, e sem essa espera a água encontra bolha em vez de café e escorre por fora do bolo, sem extrair o que interessa.

Depois vá em três vertidas em espiral, do centro pra borda, sem molhar o papel na subida. Mantenha o nível alto: água baixa expõe o pó grudado na parede, que resseca e para de extrair no meio do processo.

A água entra a 94°C, mais quente que a de prensa. A Chemex perde calor rápido no vidro largo e no papel grosso, e água morna nesse conjunto entrega xícara aguada, com o jasmim preso no pó em vez de solto na caneca.

Sirva e cheire antes de beber. O jasmim abre no vapor, o pêssego aparece no meio do gole conforme a xícara amorna, e o mel fica por último, doce e macio, com o final limpo que só filtro grosso entrega.

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III · O DETALHE

Por que o terreiro suspenso decide o jasmim

Agora a parte que quase ninguém repara: varietal não é curiosidade de rótulo, é o que decide se existe jasmim na xícara. Nenhum ajuste de torra ou de preparo inventa um aroma que a planta não carrega.

O Java mexe por baixo num cálculo antigo, o de plantar o que rende mais saca por hectare. Um pé alto, de safra curta e produção baixa, só se paga se o café for vendido por qualidade, com altitude e varietal declarados no rótulo.

A resistência à antracnose também não é detalhe de agrônomo. Uma planta que aguenta doença deixa o produtor gastar menos com defensivo e investir onde muda a xícara, na colheita seletiva e na secagem lenta.

O terreiro suspenso é o segundo ponto. É estrutura barata, tela e cavalete, e é ela que separa o Java bem seco do lote fermentado. Ar por baixo é o que evita que a camada de baixo abafe enquanto a de cima seca.

A Chemex entra pra provar o argumento porque não maquia nada. Filtro grosso tira o óleo que disfarça defeito, e café mal colhido aparece adstringente logo na primeira xícara, sem corpo pra esconder o erro.

Num Java bem seco ela faz o contrário. Deixa o floral no topo, o pêssego no meio e o mel no fundo, separados um do outro, com uma transparência que nenhum pó de mercado moído há meses consegue alcançar.

E tem a decisão que começa tudo, comprar direto de quem plantou. O café veio de uma lavoura só, com altitude e varietal declarados, e o dinheiro voltou pra mão que subiu a encosta cinco vezes atrás da fruta madura.

O Java da Mantiqueira não disputa volume nem preço de prateleira. Disputa a ideia de que café brasileiro pode cheirar a flor. O veredicto está na caneca: o jasmim aparece antes do primeiro gole.

 

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