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Notas do Café

O GRÃO DE HOJE

MGS Ametista de Manhuaçu

Do mar de morros à AeroPress que encorpa a xícara.

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Grãos de café MGS Ametista de processo natural saindo de um saco de estopa sobre mesa de madeira na varanda de um sítio de família nos morros de Manhuaçu na Zona da Mata mineira, AeroPress com êmbolo e filtro de papel em primeiro plano, pedaço de caramelo, nozes e um pote de mel junto aos grãos, cerejas de café secando ao sol no terreiro e o mar de morros na neblina ao fundo

Manhuaçu é uma das maiores cidades de café do Brasil e o nome dela não aparece em rótulo nenhum. O grão de hoje sai de lá, da Zona da Mata mineira: um MGS Ametista natural, colhido a dedo na encosta, seco inteiro no terreiro e comprado direto de quem plantou. Na xícara, chegou com caramelo, nozes e mel.

Manhuaçu colhe café em volume de gigante e nunca aparece na prateleira. Ali um produtor pequeno colhe a dedo, na encosta, um arábica feito pra resistir à ferrugem.

É o oposto do pó de mercado. Na AeroPress, veio caramelo, noz e mel, com corpo cremoso e final doce e longo.

I · O GRÃO DO DIA

O Ametista que a EPAMIG criou pra encarar a ferrugem

Manhuaçu fica na Zona da Mata de Minas, no meio do que os geógrafos chamam de mar de morros: uma sucessão de encostas curtas e íngremes que não deixa um talhão plano sequer. A cidade colhe café em volume de gigante e segue anônima na prateleira.

A região tem nome próprio: Matas de Minas. Foi o berço do café no Brasil e virou o quintal esquecido dele, dezenas de municípios de encosta, quase todos de propriedade pequena e familiar, entre 600 e 1.200 metros, com serviço feito no braço.

Nesses morros a inclinação passa de 40% em muito talhão. Trator não sobe, colhedeira não entra, e a lavoura inteira depende de gente subindo a pé com o pano no ombro. É a razão de a região ter ficado de fora da mecanização que tomou o Cerrado.

O grão de hoje sai de um sítio pequeno de encosta, do tipo que tem café em cima, roça de milho embaixo e terreiro de laje colado na casa. O produtor colhe, seca e vende o próprio lote, sem entregar a saca pro atravessador da cidade.

O que está plantado ali é o MGS Ametista, cultivar de arábica saída da pesquisa agrícola mineira. A EPAMIG batizou uma linhagem inteira com nome de pedra e de madeira nobre, e o Ametista é o pé desenhado pra encarar a ferrugem na encosta úmida.

A sigla MGS quer dizer Minas Gerais Seleção, o carimbo que a EPAMIG põe nas cultivares que saem dos seus campos de teste. O Ametista veio do cruzamento do Catuaí Amarelo com o Híbrido de Timor, o pé que carrega o gene de resistência à ferrugem.

A ferrugem é o pesadelo do cafeicultor: mancha alaranjada por baixo da folha, desfolha o pé e derruba a safra seguinte junto. Na Zona da Mata, com neblina de manhã e umidade alta o ano todo, ela ataca mais forte do que no cerrado seco.

A colheita aqui é feita a dedo, cereja por cereja. Em vez de derriçar o galho inteiro e derrubar verde e maduro no mesmo pano, o produtor passa várias vezes na mesma rua e tira só a fruta vermelha e mole.

Depois de colhida, a cereja vai inteira pro terreiro, sem lavar e sem descascar. Seca ao sol com a polpa agarrada no grão, no processo natural, revirada com rodo várias vezes ao dia pra não fermentar demais e azedar o lote inteiro.

Numa região de neblina, secar natural é aposta de quem sabe o que faz. O produtor abre o café em camada fina de manhã e cobre o monte no fim da tarde, por duas a três semanas, até a fruta chacoalhar seca na mão.

A secagem lenta dentro da casca é o que enche o grão de açúcar, e daí sai o mel da xícara, doce quase floral que fica no fundo da boca. Café descascado antes de secar não entrega essa camada, porque a polpa saiu antes de passar o açúcar pro grão.

A noz vem da torra média, o ponto em que um grão já doce por dentro solta nota de castanha sem passar do ponto e virar amargo de carvão. O caramelo é o corpo por trás, denso e escuro, que segura a bebida na boca.

Comprar direto do produtor muda o que chega na sua casa. Vem o nome do sítio, a altitude, a data da colheita e a torra fresca, no lugar do pó anônimo que a indústria mistura pra apagar de qual morro saiu cada grão.

MGS Ametista natural de Manhuaçu: notas de caramelo, noz e mel, com corpo cremoso e final doce e longo. Arábica resistente à ferrugem saído da pesquisa da EPAMIG, colhido a dedo em encosta íngreme e comprado direto de quem planta.

Na boca, o MGS Ametista entrega caramelo logo na entrada, com a noz no meio do gole e o mel fechando, doce e longo. É café de corpo cheio, acidez baixa e final macio. Faixa de preço dos 250g comprando direto do produtor: R$ 32 a R$ 49. É preço de origem sem ágio de região famosa, e paga quem subiu o morro.

 
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II · COMO PREPARAR

A AeroPress que deixa o corpo cremoso em dois minutos

Um café doce e denso como esse pede o método que empurra tudo pra xícara em vez de deixar escorrer, e o método é a AeroPress. A pressão da mão tira caramelo e mel do pó em dois minutos e devolve um corpo cremoso.

A AeroPress é um tubo de plástico com êmbolo, desenhada em 2005 por um engenheiro americano que fabricava brinquedo de arremesso e achava ruim o café do próprio escritório. Imersão e prensa no mesmo aparelho, com filtro de papel fino preso na tampa.

A receita na AeroPress

Café17g
Água220ml (proporção 1 pra 13)
Moagemmédia-fina, tipo sal de cozinha
Temperatura88°C
Imersão1 minuto e 30, agitando aos 30 segundos
Tempo total2 minutos e 30 do começo ao fim

Escalde o filtro antes de qualquer coisa. O papel da AeroPress é fino, mas chega com gosto de fábrica, e a água quente tira o gosto e ainda aquece a tampa. Jogue fora a água do enxágue antes de fechar o aparelho.

Monte no método invertido, com o êmbolo encaixado por baixo e o tubo de boca pra cima. Assim nada pinga antes da hora e o café fica em imersão do primeiro ao último segundo, que é o que constrói o corpo cremoso da xícara.

A água entra a 88°C, mais fria que a de coador. A AeroPress extrai rápido por causa da pressão, e água fervendo em cima de um natural doce puxa o amargo pra frente e apaga o mel do final do gole.

Agite uma vez aos 30 segundos, só uma passada de colher pra afundar a crosta de pó seco que sobe. Um natural bem seco solta muito gás e forma bolsão, e bolsão de pó seco no meio do bolo extrai torto.

Prense devagar, contando 30 segundos até o fim. Força demais entope o papel e traz aspereza junto. Quando o aparelho começar a chiar, pare: o chiado é ar passando, e ar passando arrasta o pó fino que ficou no fundo.

Sirva na hora e repare no caramelo abrindo a xícara. Conforme amorna, a noz sobe no meio do gole e o mel fica no fundo da boca, doce e longo, com o corpo cremoso segurando tudo por baixo.

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III · O DETALHE

Por que a cultivar decide o destino do morro

Agora a parte que quase ninguém repara: cultivar não é assunto de agrônomo, é o que decide se um sítio de encosta sobrevive. Sem um pé resistente à ferrugem, lavoura de morro em região de neblina vira aposta anual contra o clima.

O MGS Ametista mexe por baixo num jogo velho, o do café de encosta vendido por décadas em saca anônima, a preço de commodity. Um pé que aguenta ferrugem corta veneno e risco, e libera o produtor pra investir na colheita seletiva e na secagem, que é o que separa origem de volume.

O nome de pedra preciosa também não é enfeite de marketing. É carimbo de instituto público: cada cultivar dessa linhagem levou anos de campo, geração após geração de planta, até provar que resistia à praga sem perder o gosto na xícara.

A AeroPress serve pra provar o ponto porque não maquia nada. A prensa entrega em dois minutos e meio tudo que estava no pó: café mal colhido aparece áspero na hora, e defeito de secagem denuncia gosto de fermentado no fim do gole.

Num natural bem revirado no terreiro, ela faz o contrário. Empurra o caramelo pra frente, deixa a noz no meio e segura o mel no fundo, com um corpo cremoso que nenhum pó de mercado moído há seis meses consegue montar.

E tem a decisão que começa tudo, comprar direto de quem plantou. O café veio de um morro só, com nome e altitude, sem passar por atravessador que mistura lote com lote pra formar carga, e o dinheiro voltou pra mão que catou cereja por cereja.

O MGS Ametista de Manhuaçu não disputa o brilho do microlote de leilão nem o cartaz das regiões famosas. Disputa o direito de um café de encosta ter sobrenome no rótulo. O veredicto está na caneca: nome de pedra preciosa é grande demais até você provar.

 

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“narrativa incrível da região onde se encontram os pés de café, pura literatura”

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“O café bourbon rosa prova a quem quer que desconfie que o café é uma fruta especial”

Ronaldo · a****@gmail.com
R

“2 coisas: informações sobre um microlote e o processo de filtragem do origami”

Ronaldo · a****@gmail.com

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