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Notas do Café

O GRÃO DE HOJE

Wush Wush da Serra da Mantiqueira

Da lavoura pequena ao Origami de vinte pregas.

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Grãos de café Wush Wush saindo de um saco de linho sobre mesa de madeira na varanda de uma lavoura pequena da Serra da Mantiqueira em Minas Gerais, coador Origami de cerâmica branca com costelas verticais sobre suporte de madeira em primeiro plano, ramo de jasmim, maracujá partido e um copo de chá preto junto aos grãos, terreiros suspensos de tela com cerejas inteiras secando ao fundo e as montanhas na neblina da manhã

A Serra da Mantiqueira guarda um talhão de café que quase ninguém consegue pagar. O grão sai de uma lavoura pequena do lado mineiro: um Wush Wush etíope, colhido cereja a dedo e secado inteiro no terreiro suspenso. No Origami, chegou com jasmim, maracujá e chá preto.

A Mantiqueira tem noite fria o ano inteiro e um produtor pequeno apostou o talhão de cima num varietal etíope que rende quase nada por pé.

É o oposto do café de volume. No Origami, veio jasmim, maracujá e chá preto, com acidez de fruta tropical e final perfumado.

I · O GRÃO DO DIA

O Wush Wush que veio de uma vila etíope e rende quase nada

A Serra da Mantiqueira sobe entre Minas e São Paulo e passa dos 1.200 metros em boa parte do trecho. Do lado mineiro o café ocupa a meia encosta, com selo próprio de origem e lavoura miúda, de família.

A altitude trabalha a favor de quem tem paciência. A noite fria segura o metabolismo do pé, a cereja demora semanas a mais pra ficar vermelha, e a demora enche o grão de açúcar e de acidez de fruta.

O grão de hoje sai de uma propriedade de poucos hectares, com talhão em degrau e terreiro montado ao lado da casa. O produtor colhe, seca e vende o próprio lote, sem armazém de terceiro entre a roça e a xícara.

O que está plantado no talhão de cima é o Wush Wush, e o nome não é invenção de marca. É uma vila no sudoeste da Etiópia, na região de Kaffa, onde a planta foi achada crescendo no meio da mata.

A Etiópia é o berço do arábica, e o Wush Wush é um dos milhares de tipos locais que nasceram por lá sem cruzamento de laboratório. Nenhum agrônomo desenhou o floral dele, a floresta desenhou.

O varietal ficou famoso longe de casa. Foi levado pra Colômbia, ganhou nome nas fazendas de altitude do Huila e do Cauca, apareceu em leilão com preço alto, e só depois pintou no Brasil, sempre em talhão pequeno.

Na roça dá pra reconhecer de longe. As folhas novas do Wush Wush puxam pro bronze avermelhado, o pé cresce alto, com galho comprido e espaço largo entre os nós, e a cereja é miúda perto da de um Catuaí.

E aí mora o problema de quem planta. Pé alto e galho vazio significam menos fruta por planta, cada litro colhido custa mais caro em mão de obra, e a safra inteira do talhão às vezes cabe em poucas sacas.

Varietal de baixa produção não tem como sair barato na prateleira. O preço da xícara nasce na roça.

A colheita é feita a dedo, cereja por cereja, com quatro a cinco passadas na mesma rua ao longo da safra. Grão verde apaga o floral e devolve adstringência, e o lote é pequeno demais pra correr o risco.

Depois da colheita a fruta vai inteira pro terreiro, sem despolpar. Secar em cereja é deixar a polpa doce agarrada ao grão enquanto a água evapora, e é a polpa que empurra a xícara pro lado tropical.

O terreiro é suspenso, uma tela esticada em cavalete a um metro do chão. A cereja fica em camada fina, revirada de duas em duas horas, com ar passando por cima e por baixo ao mesmo tempo.

Secar em cereja é o mais delicado dos três processos. Leva de dezoito a vinte e cinco dias, e camada grossa ou noite úmida fermenta a polpa e devolve gosto de fruta passada.

É da soma toda que sai a xícara. O jasmim vem do varietal e some no primeiro erro de terreiro, o maracujá vem da polpa secando junto ao grão em altitude, e o chá preto é o tanino macio que fica no final do gole.

Wush Wush de lavoura pequena da Serra da Mantiqueira: notas de jasmim, maracujá e chá preto, com corpo leve, acidez alta e final perfumado. Varietal etíope de porte alto e produção baixa por pé, colhido cereja a dedo e secado inteiro em terreiro suspenso.

Na boca, o Wush Wush abre com jasmim no aroma, entrega maracujá no meio do gole e fecha com chá preto, seco e longo. É café de corpo leve, acidez alta e final perfumado. Faixa de preço dos 250g comprando direto do produtor: R$ 95 a R$ 150. Produção baixa e lote pequeno cobram caro, e paga quem quer beber flor.

 
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II · COMO PREPARAR

O Origami que vaza rápido e solta o floral em três minutos

Um café de floral delicado e final de chá pede um coador que vaze rápido e não deixe a bebida de molho, e o coador é o Origami. As costelas da cerâmica levantam o papel da parede e deixam o ar correr por fora do filtro.

O Origami é um cone de cerâmica de Mino, feito no Japão, apoiado num suporte de madeira. O nome vem das dobras: a peça parece papel dobrado à mão, com vinte pregas verticais que não estão ali de enfeite.

Cada prega cria um vão de ar entre o papel e a cerâmica. A água encontra menos resistência pra sair, a vazão fica rápida e o café extrai sem ficar encharcado, o ajuste certo pra um grão perfumado.

A peça aceita filtro cônico e filtro de fundo plano. Num Wush Wush vale o cônico, que fecha o leito em ponta e puxa a xícara pro floral.

A receita no Origami

Café20g
Água320ml (proporção 1 pra 16)
Moagemmédia, tipo areia de praia, nem fina de espresso
Temperatura92°C
Pré-infusão50ml por 35 segundos, filtro cônico escaldado
Tempo total2 minutos e 50 a 3 minutos, em três vertidas

Escalde o filtro com água fervente antes de tudo. O papel chega com gosto de fibra e o gosto vai inteiro pra caneca se o filtro entrar seco. A água do escalde ainda aquece a cerâmica fria.

Moa no meio do caminho. O vão de ar das pregas acelera a vazão, e moagem grossa num coador rápido entrega água com cheiro de café, com o maracujá preso no pó.

Moagem fina demais faz o contrário: o leito compacta, a água empoça no papel e sobra amargor no lugar do chá preto. Areia de praia é a textura que segura a água pelo tempo certo.

A água entra a 92 graus, mais fria que a de um café encorpado. Aroma floral é volátil e água fervendo arranca junto o tanino da casca, e um lote secado em cereja já traz doçura de sobra pra extrair sem forçar.

Comece com 50ml e espere trinta e cinco segundos. A pré-infusão solta o gás preso no pó fresco, e sem a espera a água escorre por fora do bolo e encontra bolha em vez de café.

Depois vá em três vertidas em espiral, do centro pra borda, sem molhar o papel na subida. Mantenha o leito coberto: pó exposto na parede resseca e para de extrair no meio do processo.

Mire em três minutos cravados. Se drenar antes de dois e meio, feche um pouco a moagem; se passar de três e meio, abra.

Sirva e cheire antes de beber. O jasmim abre no vapor, o maracujá aparece no meio do gole conforme a xícara amorna, e o chá preto fica por último, seco e limpo na língua.

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III · O DETALHE

Por que a conta da roça decide o preço da xícara

Agora a parte que quase ninguém repara: o preço de um café especial não é invenção de rótulo, é aritmética de lavoura. Um varietal que rende metade por pé já custa o dobro por saca antes de alguém torrar.

O Wush Wush mexe num cálculo antigo, o de escolher a planta que enche mais saca por hectare. Pé alto, galho comprido e cereja miúda perdem a conta de longe, e por essa razão o varietal some da lavoura grande.

Quem planta assim aposta na xícara, não no volume. O café só se paga vendido com altitude, varietal e lote declarados, comprado por quem entende a diferença e aceita pagar por ela.

A secagem em cereja é o segundo risco. A polpa inteira demora quase um mês pra secar e azeda fácil, e um lote perdido no terreiro leva junto a safra do talhão.

O terreiro suspenso é o seguro barato. Tela e cavalete custam pouco, e o ar por baixo evita que a camada debaixo abafe enquanto a de cima seca, que é o que separa o lote doce do fermentado.

O Origami entra pra provar o argumento porque não maquia nada. Vazão rápida e leito solto tiram o corpo que disfarça defeito, e café mal colhido aparece adstringente logo no primeiro gole.

Num lote bem seco o coador faz o contrário. Deixa o jasmim no topo, o maracujá no meio e o chá preto no fundo, separados um do outro, com uma clareza que pó de mercado moído há meses nunca alcança.

E tem a decisão que começa tudo, comprar direto de quem plantou. O café veio de um talhão só, com altitude e varietal declarados, e o dinheiro voltou pra mão que subiu a encosta cinco vezes atrás da fruta madura.

O Wush Wush da Mantiqueira não disputa preço de prateleira nem volume de saca. Disputa a ideia de que café pode ter gosto de flor e de chá. O veredicto está na caneca: o jasmim chega antes do primeiro gole.

 

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“narrativa incrível da região onde se encontram os pés de café, pura literatura”

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“O café bourbon rosa prova a quem quer que desconfie que o café é uma fruta especial”

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“2 coisas: informações sobre um microlote e o processo de filtragem do origami”

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